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Mostrando postagens de julho, 2017

somos todos o mesmo nada extraordinário

não sou nada mais do que aparento ser. não vou além dessa superfície rasa. não molharias nem teus tornozelos. adolescente amargo num mar de decepções fúteis. quero derrubá-los; desde que eu não seja obrigado a sujar meus dedos. permaneço sempre do que é feita a primeira impressão, e minha conformidade alimenta ainda mais o que não sou. encontro conforto em não contrair um músculo sequer na tentativa utópica de mover-me para longe dessa caverna escura, junto a todos vocês tão ordinariamente especiais. iguais a mim. seria trágico se não fosse engraçado.
me convenci de que sinto diferente. me fiz meu próprio deus: desfiz minha forma de barro, materialmente igual à tantas outras, e me moldei outra vez num novo espaço. tirei dos ombros o peso que eu mesma coloquei, inconscientemente. longe de mim a responsabilidade. me convenci de que não há nenhum estômago e nenhuma entranha que se embrulhe tanto que quase pula pra fora em desespero como as minhas; ninguém que necessite tanto de ar. me encontrei sozinha nesse novo universo o qual decidi habitar; conforto. plantei que a ideia de reciprocidade é algo impossível de se existir entre alguém de lá e alguém daqui. me fiz especial. uma versão idealizada. decidi não aceitar que existe semelhança entre Eu, e o resto, meros mortais. endeusando-me, torno-me intocável. impossível de qualquer tipo de aproximação. imaculável e imortal.  .

discurso de ódio

preciso me abster mas não consigo. não sou capaz de aguentar a responsabilidade nem do que me traria, finalmente, paz. assim tudo se resume a nada. diminuímos tanto tudo e todos e evaporamos. não existe mais o cru. as raízes se infiltraram no fundo desse universo paralelo e quase abstrato que alimentamos sem parar, incansavelmente nos conformamos cada vez mais com o que é superficial. quero me unir. aqui, desse lado. onde existe o toque dos dedos e o desconforto-confortante do olho no olho. que por algumas horas, um dia, possamos deixar guardado na gaveta todo esse contato falso. não quero, no entanto, o clichê. não planejo iniciar uma grande reflexão, muito menos causar comoção com o quanto não suporto mais. quero paz. pazpazpazpazpazpaz. 

metanoL

eu sou o cheiro do gelo seco. eu incomodo o nariz e grudo na roupa. eu permaneço preso por dias não importa quantas tentativas hajam de levar-me embora. eu embaço o ambiente e confundo a visão; eu sou o choque. eu sou inofensivo, todavia. eu sou a metamorfose. a ebulição. eu sou nada mais do que água no final da noite. 
almejo ver-te ao sol do meio dia. que a distração e o cansaço da hora em que nos deitemos na noite passada não me tenha permitido fechar a janela, e que acordemos com a luz amarelada refletindo nossos corpos entrelaçados. desejo assistir-te abrir insatisfeito os olhos, com a testa franzida. quase conseguir ver o sol queimando suas córneas. anseio por presenciar tua pele brilhando, teus cabelos. anseio ver-te.
eu sinto que meu pesadelo dura à dezesseis anos. eu sinto que as horas e os dias e as semanas e os meses nada mais são do que meu corpo à deriva, à expectativa e à espera de um incógnito grande evento que talvez nunca venha a acontecer. sinto aquele pânico de quando se acorda no meio da madrugada, quando tudo do lado de fora ainda permanece escuro e as poucas vozes que se ouvem não se distinguem em razão ou figura, o receio de voltar a fechar os olhos e mergulhar novamente nas criações perturbadoras da mente. sinto uma necessidade nojenta de agarrar-me à algo. temo que por ventura meu grande evento chegue pelo correio. a tentativa de prender tudo e todos - que muito provavelmente não possuíam o menor interesse em tornar-se o dito cujo - aqui dentro foi falha, pois eram tantos que não houve mais espaço e escorriam pelos cantos. tudo anda vazio. ainda encontro prazer nos pequenos detalhes se for meu dia de sorte, mas é tão raro que nem ao menos espero mais. acostu...