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me convenci de que sinto diferente. me fiz meu próprio deus: desfiz minha forma de barro, materialmente igual à tantas outras, e me moldei outra vez num novo espaço. tirei dos ombros o peso que eu mesma coloquei, inconscientemente. longe de mim a responsabilidade. me convenci de que não há nenhum estômago e nenhuma entranha que se embrulhe tanto que quase pula pra fora em desespero como as minhas; ninguém que necessite tanto de ar. me encontrei sozinha nesse novo universo o qual decidi habitar; conforto. plantei que a ideia de reciprocidade é algo impossível de se existir entre alguém de lá e alguém daqui. me fiz especial. uma versão idealizada. decidi não aceitar que existe semelhança entre Eu, e o resto, meros mortais. endeusando-me, torno-me intocável. impossível de qualquer tipo de aproximação. imaculável e imortal. .

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discurso de ódio

preciso me abster mas não consigo. não sou capaz de aguentar a responsabilidade nem do que me traria, finalmente, paz. assim tudo se resume a nada. diminuímos tanto tudo e todos e evaporamos. não existe mais o cru. as raízes se infiltraram no fundo desse universo paralelo e quase abstrato que alimentamos sem parar, incansavelmente nos conformamos cada vez mais com o que é superficial. quero me unir. aqui, desse lado. onde existe o toque dos dedos e o desconforto-confortante do olho no olho. que por algumas horas, um dia, possamos deixar guardado na gaveta todo esse contato falso. não quero, no entanto, o clichê. não planejo iniciar uma grande reflexão, muito menos causar comoção com o quanto não suporto mais. quero paz. pazpazpazpazpazpaz. 
me pego presa à um futuro o qual não tenho certeza se é meu. sua única vantagem é não ser o presente. não me deixam esquecer que ele existe e chama meu nome nas manhãs em que nem me reconheço. como pode o amanhã ser meu motivo para querer o hoje se o quero menos ainda?

somos todos o mesmo nada extraordinário

não sou nada mais do que aparento ser. não vou além dessa superfície rasa. não molharias nem teus tornozelos. adolescente amargo num mar de decepções fúteis. quero derrubá-los; desde que eu não seja obrigado a sujar meus dedos. permaneço sempre do que é feita a primeira impressão, e minha conformidade alimenta ainda mais o que não sou. encontro conforto em não contrair um músculo sequer na tentativa utópica de mover-me para longe dessa caverna escura, junto a todos vocês tão ordinariamente especiais. iguais a mim. seria trágico se não fosse engraçado.