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eu sinto que meu pesadelo dura à dezesseis anos.
eu sinto que as horas e os dias e as semanas e
os meses nada mais são do que meu corpo à deriva,
à expectativa e à espera de um incógnito grande
evento que talvez nunca venha a acontecer.
sinto aquele pânico de quando se acorda no meio da
madrugada, quando tudo do lado de fora ainda
permanece escuro e as poucas vozes que se ouvem
não se distinguem em razão ou figura, o receio de
voltar a fechar os olhos e mergulhar novamente
nas criações perturbadoras da mente.
sinto uma necessidade nojenta de agarrar-me à algo.
temo que por ventura meu grande evento chegue
pelo correio.
a tentativa de prender tudo e todos - que muito
provavelmente não possuíam o menor interesse em
tornar-se o dito cujo - aqui dentro foi falha,
pois eram tantos que não houve mais espaço e
escorriam pelos cantos.
tudo anda vazio.
ainda encontro prazer nos pequenos detalhes se for
meu dia de sorte, mas é tão raro que nem ao menos
espero mais.
acostumei-me com acordar pela manhã e voltar para
a cama de noite com a mesma sensação de espera
que nunca termina.

- alicia

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me pego presa à um futuro o qual não tenho certeza se é meu. sua única vantagem é não ser o presente. não me deixam esquecer que ele existe e chama meu nome nas manhãs em que nem me reconheço. como pode o amanhã ser meu motivo para querer o hoje se o quero menos ainda?

somos todos o mesmo nada extraordinário

não sou nada mais do que aparento ser. não vou além dessa superfície rasa. não molharias nem teus tornozelos. adolescente amargo num mar de decepções fúteis. quero derrubá-los; desde que eu não seja obrigado a sujar meus dedos. permaneço sempre do que é feita a primeira impressão, e minha conformidade alimenta ainda mais o que não sou. encontro conforto em não contrair um músculo sequer na tentativa utópica de mover-me para longe dessa caverna escura, junto a todos vocês tão ordinariamente especiais. iguais a mim. seria trágico se não fosse engraçado.

nem um, nem outro

encontro meu conforto num lugar caótico, onde para a maioria é motivo para perda de sono. sinto-me segura nesse limbo; nele há cor, cheiro, e toque. assisto de longe aonde o final desse labirinto vai parar; não tenho sangue para atravessá-lo e me acostumei demais a ficar à beira desse abismo, com metade de meu ser corroído por vertigem e a outra metade segurando meus pés forte ao chão. meu vício é afastar a responsabilidade, é não ter consciência para se colocar a mão. aceito ser cega de um olho pois diferente de você, durmo à noite.