me vi naqueles tomates que se afundaram na gaveta da geladeira, e esmagaram-se um em cima do outro em meio à um fungo recém-nascido e se você ousasse encostar os dentes neles sentiria:
que estou amarga.
[e que acontecimento curioso que, enquanto relato minha sensação de ser-fruta-podre, os primeiros raios de sol em quatro dias tomem a liberdade de invadir minha cozinha. o frio tem sido tanto que me amarguro mais ainda]
foi um daqueles processos tão lentos mas que quando finalmente acontecem, acontecem de uma só vez. um dia acordei e em meu ritual de gastar pelo menos uma hora deitada na cama antes de encarar o outro lado da porta realizei,
estou amargurada.
e foi uma percepção tão repentina.
e não parei de pensar nessa palavra desde então.
e no peso de seu significado.
e na ironia de como ela se aplica bem à mim, que sempre corri dos sentimentos feios.
e no porquê eu a abracei com tanta vontade.
não sei qual o limite entre uma aceitação saudável - do tipo "estou sentindo e mesmo sendo ruim, prefiro aceitar do que fingir que isso não existe em mim" - e aquele conforto desconfortável - do tipo, por mais que machuque prefiro permanecer estagnada neste lugar do que me mover para tentar sair.
porque, quando vejo vocês, sinto amargura misturada com tristeza, e nada nunca volta a ser que nem antes mas de qual de nós é a culpa?
e eu nunca vou pertencer a nada disso, mas é por falta de tentativa? é por tentativa excessiva?
esse amargor que toma conta da boca e faz o estômago revirar e não tem remédio. sentou-se aqui e não vai embora por nada, me acompanha em cada esquina para ter certeza de que eu não estou sozinha e de que não estou me esquecendo do gosto.
fruta podre é pra se jogar fora.
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