uma das paredes do meu quarto eu pintei de laranja
laranja-puxando-pro-pêssego, acho que era nêspera o nome
da tinta segundo o livreto da loja;
em volta do vidro da minha janela,
que dá pra rua -
pequena, a numeração vai somente até o 700,
onde em sua extensão
entre as casas e as árvores e as sombras do postes
moram quatro gatos pretos
que eu achei que eram dois,
mas eles miaram aqui embaixo esses dias
e eu pude conhecê-los propriamente -
pintei de azul piscina,
aquele que dá mesmo vontade de tirar toda a roupa e mergulhar sem pensar duas vezes.
preferia minha estante antiga.
ela tinha menos prateleiras, é verdade,
mas elas eram mais altas,
e cabiam todos os meus livros em pé.
detesto ter que arrumá-los deitados.
detesto também como, com a mudança, tive que tirá-los e guardá-los e reorganizá-los milhares de vezes, e só assim para eu me lembrar de quantos deles eu ainda nem li.
não tem um dia que eu não lembre da minha escrivaninha.
cada uma das sete gavetas dela possuíam centenas de moedas jogadas, algumas de outros países
que eu separei cuidadosamente das outras, triviais
mas acabei misturando-as novamente sem querer
deixei flores dentro de garrafas de vinho vazias ali por muito tempo;
o sol engoliu todas em menos de uma semana
mas ainda as mantenho aqui,
mesmo secas.
minha mãe diz que faz meu quarto parecer um cemitério
mas o cheiro e a lembraça calorosa que elas guardam me agrada.
realizo, agora, que sinto uma saudade quase infantil; tempos bons que não voltam mais e esse tipo de coisa. simbolismo?
tenho espelhos demais no meu quarto e é irônico porque desvio o olhar toda vez que passo por eles,
mas tirá-los daqui seria demais,
afinal eu só preciso me reacostumar com a ideia de olhar-me sem estranhar.
não gosto de luz de teto.
prefiro abajours, que iluminam de baixo para cima,
e assim iluminam tudo.
o problema é que o meu fica perto da curva da parede,
onde se juntam mosquitos quase invisíveis
daqueles que gostam do calor que a lâmpada produz,
e fico nervosa e de vez em quando preciso apagá-la para dissipá-los.
recentemente pendurei um auto-retrato que fiz com aquarela em frente á minha cama.
foi algo que pintei há meses atrás e só esses dias senti orgulho.
ninguém comentou
mas gosto mesmo assim.
tenho uma vela quase inexistente de tanto que a utilizei quando você estava aqui dormindo e eu queria escrever sem acender a luz para não atrapalhar seu sono
num candelabro de metal, antigo
mas que não sei da onde veio.
três livros lidos pela metade pousam na mesma mesinha de cabeceira que a vela e as flores mortas, e o abajour
sinto um comforto estranho.
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