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HÁ UM MÊS ATRÁS EU ME SENTIA VIVA E AGORA NÃO SINTO MAIS

sinto uma tremedeira típica
e venho tentando mudar os adjetivos
para que não fique claro
que só digo mais
da mesma coisa

estou na cama e estou cansada
preciso dizer para que imagine o cenário
cama de casal, cobertor felpudo e preto, lençol branco meramente manchado, luz amarelada refletindo no espelho onde se juntam pequenos insetos por conta de seu calor
tudo que penso agora passa correndo pela minha cabeça
estou tão exausta que não consigo me concentrar mais
posso referir-me a esse sentimento como pré-sono, acredito 
aqueles minutos em que antes da consciência se esvair por completo
enquanto ela aos poucos vai
mas ainda fica

[não] acontece,
não durmo

me encontro por horas nesse limbo de pensamentos onde não há distinção ou consciência suficiente para compreender o que é importante e o que é ilusão 
mas me deito com a luz acesa e os olhos abertos
[senão, sinto tanto medo]
por horas

penso tanto em você
e "você" 
quatro letras e um acento tão simples
me traz lágrimas fraquinhas
possuo imagens fotográficas atrás de meus olhos e as agarro com tanto receio
você está,
e é bom que fique

me sinto segurando nos braços caixas e mais caixas que não suportam o peso de tudo que guardam
e de repente despencam e caem ao chão fazendo uma bagunça
e medo que tudo se perca
e suma
e você esqueça
ou pior ainda, eu 

agora a luz amarelada me incomoda porque minha cabeça dói e meus olhos latejam
espero que você esteja dormindo bem

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me pego presa à um futuro o qual não tenho certeza se é meu. sua única vantagem é não ser o presente. não me deixam esquecer que ele existe e chama meu nome nas manhãs em que nem me reconheço. como pode o amanhã ser meu motivo para querer o hoje se o quero menos ainda?

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não sou nada mais do que aparento ser. não vou além dessa superfície rasa. não molharias nem teus tornozelos. adolescente amargo num mar de decepções fúteis. quero derrubá-los; desde que eu não seja obrigado a sujar meus dedos. permaneço sempre do que é feita a primeira impressão, e minha conformidade alimenta ainda mais o que não sou. encontro conforto em não contrair um músculo sequer na tentativa utópica de mover-me para longe dessa caverna escura, junto a todos vocês tão ordinariamente especiais. iguais a mim. seria trágico se não fosse engraçado.

nem um, nem outro

encontro meu conforto num lugar caótico, onde para a maioria é motivo para perda de sono. sinto-me segura nesse limbo; nele há cor, cheiro, e toque. assisto de longe aonde o final desse labirinto vai parar; não tenho sangue para atravessá-lo e me acostumei demais a ficar à beira desse abismo, com metade de meu ser corroído por vertigem e a outra metade segurando meus pés forte ao chão. meu vício é afastar a responsabilidade, é não ter consciência para se colocar a mão. aceito ser cega de um olho pois diferente de você, durmo à noite.