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eu sinto falta. sou feita de carne e osso e unhas e uma pitada de desconexão com a realidade que não me permite perceber nada até que caia no meu colo ou bata na minha cara - ou qualquer outra metáfora que explique o contrário e a consequência de se empurrar com a barriga. dói e sangra tanto em mim quanto pra vocês. eu agarro minha culpa; a olho de todos os ângulos, seguro-a de cabeça para baixo. reescrevo os diálogos e marco no calendário e sei, sei que passou tempo demais. além do que deveria. muito para agora voltar atrás e retomar os dias do início. a consciência de que eu teria feito tudo diferente somente me consome e a incerteza de minha própria capacidade de me levar a sério me deixa isto:

não tenho o que oferecer.
nada.
chego de mãos abanando e é porque meu arrependimento é o que me resta e não pode ser vendido em troca de perdão.
mas sou feita de carne e osso e unhas e meus pés agora tocam o chão.
espero que seja um começo.

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me pego presa à um futuro o qual não tenho certeza se é meu. sua única vantagem é não ser o presente. não me deixam esquecer que ele existe e chama meu nome nas manhãs em que nem me reconheço. como pode o amanhã ser meu motivo para querer o hoje se o quero menos ainda?

somos todos o mesmo nada extraordinário

não sou nada mais do que aparento ser. não vou além dessa superfície rasa. não molharias nem teus tornozelos. adolescente amargo num mar de decepções fúteis. quero derrubá-los; desde que eu não seja obrigado a sujar meus dedos. permaneço sempre do que é feita a primeira impressão, e minha conformidade alimenta ainda mais o que não sou. encontro conforto em não contrair um músculo sequer na tentativa utópica de mover-me para longe dessa caverna escura, junto a todos vocês tão ordinariamente especiais. iguais a mim. seria trágico se não fosse engraçado.

nem um, nem outro

encontro meu conforto num lugar caótico, onde para a maioria é motivo para perda de sono. sinto-me segura nesse limbo; nele há cor, cheiro, e toque. assisto de longe aonde o final desse labirinto vai parar; não tenho sangue para atravessá-lo e me acostumei demais a ficar à beira desse abismo, com metade de meu ser corroído por vertigem e a outra metade segurando meus pés forte ao chão. meu vício é afastar a responsabilidade, é não ter consciência para se colocar a mão. aceito ser cega de um olho pois diferente de você, durmo à noite.